Fevereiro 2011 | 11:27
Pedro SantosGuerreiro - psg@negocios.pt
Geração X. Geração Y. Geração Z. Geração rasca. À rasca. 2000. Geração mileurista.
Deolinda. Quantas gerações de perdidos e achados cabem na nossa?
Uma música, "Parva que sou", dos Deolinda, acordou Portugal para uma verdade abandonada: o
desemprego, a precariedade e os baixos salários da juventude, que se consumam na sua desesperança.
Estamos a falar de economia, numa linguagem que finalmente se universaliza porque não é de
economistas, nem de sindicalistas, nem de políticos. É a voz de Ana Bacalhau e de centenas de
milhares de pessoas através dela.
A letra é poderosa mas só se expandiu desta maneira desenfreada pelo efeito de confirmação, por
formar um pedregulho concreto do que era gravilha dispersa. Nenhum movimento pediu a música, mas
todos pareciam esperá-la para se identificarem como massa gregária - mas separada do resto do País.
Não faltarão agora abutres desta deolindomania, partidos a apropriar-se da causa, ideologias a
imporem-se, líderes sonhados revolucionários, agentes, prestamistas, comerciantes, vendedores de
t-shirts e canecas estampadas. Antes desse desmancho em "pop music", reconheçamos que medra é
esta.
O que está a medrar é erva que já chega aos pescoços de quem não quer ver. O fenómeno nasce no
baixo crescimento da economia europeia, num continente que se arrisca a ficar para museu, visitado
pelos prósperos americanos, chineses, brasileiros, indianos, russos e outras emergências. Nos países
periféricos, pior. Foi em Espanha que se inventou o termo "mileurista", que só por bondade se pode
aplicar em Portugal, onde o problema não é ter salários paralisados de mil euros... Há quase 300 mil
portugueses entre os 15 e os 34 anos à procura de emprego (nunca foram tantos). Somando-lhes os
sobretributados recibos verdes e os contratos a prazo, são centenas de milhares. E mesmo nos
empregos a contrato sem termo, a escassez é tão grande que se aceitam salários baixos pela promessa
de estabilidade.
O curioso é que, dependendo das áreas, nunca saíram das faculdades alunos tão bem preparados como
hoje. O Negócios, por exemplo, é uma redacção muito jovem, essencialmente de jornalistas entre os 20
os 40 anos e está permanentemente a entrevistar finalistas de cursos de economia, gestão e
comunicação social: nunca foram tecnicamente tão bem preparados como hoje.
Os melhores têm sempre colocação e alguns (cada vez menos) com bons salários e perspectivas de
carreira - na banca de investimento, nas consultoras de gestão ou nas multinacionais, por exemplo.
Mas o País não é apenas para os génios. Até porque uns e outros estão a sair de Portugal à procura da
não-crise. Quantos têm ou gostariam de ter os filhos em colégios estrangeiros - apenas porque isso é
um passaporte?
A tese do livro espanhol dos mileuristas é de que a "nova" geração está a ser sacrificada pela "velha"
geração, para manter os seus direitos adquiridos, Estado social e empregos residentes. Mas esse livro
foi escrito quando Espanha crescia muito. Em Portugal, o problema é agravado pela falta de
crescimento económico durante pelo menos 15 anos (dez dos quais já lá vão), o que não cria
oportunidades nem empregos. Temos falta de competitividade, precisamos de exportar e, por isso,
baixam-se os salários - mas há maior inimigo da competitividade que esta quantidade alarve de
impostos? Somos, ademais, um pais desigual, economicamente mais desigual que o revoltoso Egipto
(segundo o Índice de Gini, que mede a assimetria na distribuição de riqueza). Muitos preços são feitos
para o quartil superior de rendimentos, fixando um custo de vida, sobretudo nas cidades, demasiado
caro para o restante.
É estarrecedor ver esta falta de futuro num País que é liderado... por jovens. Nunca tivemos líderes de
partidos, e do Governo, tão novos. Mais: os líderes dos dois maiores partidos são ex-jotas! Só que as
jotas tornaram-se fábricas de corrupção moral, viveiros de arenques e de tainhas, à espera da sua vez
de ser como os outros, os que já lá estão.
Os Deolinda não estão contra as propinas, não abrem trincheiras, não são sequer panfletários. Isto não
é um movimento, é um não-movimento, o que já lhes deu a candura de um não agressor, resgatando
OPINIãO
>>>>>>>>>>>>Deolinda - Parva que sou
Música e letra: Pedro da Silva Martins
Sou da geração sem remuneração
e não me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘casinha dos pais’,
se já tenho tudo, pra quê querer mais?
Que parva que eu sou
Filhos, maridos, estou sempre a adiar
e ainda me falta o carro pagar
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração ‘vou queixar-me pra quê?’
Há alguém bem pior do que eu na TV.
Que parva que eu sou!
Sou da geração ‘eu já não posso mais!’
que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
que mundo tão parvo
onde para ser escravo é preciso estudar.
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